Estado Islâmico espalha o caos a caminho da desejada “guerra apocalíptica global”

Um ano chegou para confirmar
que vinham ao que diziam. Os novos líderes da jihad global são eficientes e
sabem que basta continuarem activos para vencerem. Agora, é mais difícil
duvidar das suas ameaças.
Quando, a 29 de Junho de 2014, um grupo
conhecido até então por diferentes siglas decidiu que passaria a chamar-se
apenas Estado Islâmico e proclamou a criação de um califado, o seu porta-voz,
Abu Mohammed al-Adnani, anunciou o nascimento de “uma nova era da jihad
internacional”. Era o primeiro dia do Ramadão e o “califado” incluía províncias
na Síria e no Iraque.

Um ano depois, os jihadistas já reclamam como
parte do seu território zonas da Líbia, Iémen, Argélia, Nigéria, Afeganistão,
Paquistão, Afeganistão, Egipto e Arábia Saudita. Entretanto, massacram dezenas
de milhares de sírios e iraquianos, decapitados, queimados, afogados…
Orquestraram ou inspiraram atentados de Paris a Sydney, da Líbia à Malásia. E
somaram o apoio de grupos extremistas antes ligados à Al-Qaeda no Iémen,
Afeganistão, Paquistão, no Egipto ou na Somália.
Agora, num só dia, uma semana depois do
início do mês sagrado do jejum dos muçulmanos, três ataques em três continentes
planeados para acontecerem em simultâneo (na tradição da Al-Qaeda) ou não,
mostram até que ponto o grupo a que muitos demoraram a dar importância está
decidido a “criar o caos no mundo, para assim poder expandir-se e tentar incitar
uma guerra apocalíptica global”, diz ao New York Times Harleen
Gambhir, do Institute for the Study of War.
Os líderes do Estado Islâmico são
terroristas, criminosos, comandantes militares, governadores de cidades,
directores de hospitais ou escolas; não são um bando de loucos que age por
impulso. Mas tudo o que fazem se baseia na crença de que essa guerra, a que
oporá os verdadeiros crentes a todos os outros, vai mesmo acontecer. Apressá-la
ou não depende das circunstâncias.
Acossado dentro do seu território original,
expulso de várias localidades por milícias curdas sírias, bombardeado por uma
coligação anti-jihadista no Iraque, o grupo que se alimenta do choque provocado
pelas suas acções sabe que tem de estar permanentemente a inovar. Nunca soma muitas
derrotas sem ripostar, como fez na última semana em Kobani, no Norte da Síria.
E nunca está muito tempo sem produzir uma barbaridade nova que obrigue o mundo
a falar de si.
No início, a prioridade era conquistar
território – quem oferece uma opção total de vida tem de ter onde receber os
seus seguidores. Quando conseguiu que os Estados Unidos juntassem dezenas de
países para bombardear as suas posições, passou a fazer sentido continuar a
combater por território enquanto se incentivavam ataques a esses inimigos nos
seus próprios países.
É a consciência de que não pode parar de
chocar e a máquina de propaganda que criou para comunicar em permanência a sua
mensagem na era das redes sociais que faz deste um movimento “formidável, mais
eficaz do que qualquer outro grupo jihadista na história”, diz J.M. Berger,
co-autor de Estado Islâmico – Estado de Terror (Vogais), numa
entrevista recente ao PÚBLICO. Trata-se de “um grupo apocalíptico, fanático, e
as pessoas que atrai e que nele se envolvem têm uma enorme tolerância à
mensagem”, sublinha o investigador.
A seguir, têm de decidir se agem ou não em
função da mensagem, se partem para a Síria, se atacam a redacção de um jornal
satírico, um café onde se debate a liberdade de expressão, uma praia de um país
muçulmano que tenta estabelecer-se como uma democracia depois de décadas de
ditadura. Ou uma mesquita onde centenas de xiitas rezam num pequeno estado
inimigo no Golfo, o Kuwait, um alvo fácil num país pouco habituado a atentados,
e uma forma simples de atiçar mais ainda o conflito sectário entre sunitas e
xiitas.

Infiéis e seguidores

Para este Ramadão, o primeiro pós-califado, Adnani pedira aos seguidores “um
mês de calamidades para os kuffar”, os infiéis, todos os que não
partilham da sua visão do mundo e do islão.
Uma das grandes diferenças entre a Al-Qaeda e
o Estado Islâmico, para além da preferência da primeira por ataques
espectaculares que podiam levar anos a planear, é que os novos jihadistas são
bem mais radicais na sua definição do que são infiéis. Não declararam só guerra
aos cruzados e sionistas, querem apagar da face da terra o presente, o passado
e o futuro de todos os que não cumpram exactamente o seu ideal de islão. Mesmo
que isso signifique executar alguns dos seus próprios membros.
Outra, fruto da máquina de propaganda, é a
capacidade de “procurar pessoas dispostas a morrer fazendo-o numa série de
línguas em simultâneo”, escreve Jon B. Alterman, director do Programa para o
Médio Oriente do think tankCenter for Strategic and International
Studies (CSIS), de Washington. “Ao contrário da Al-Qaeda, que operava quase
exclusivamente em árabe, o Estado Islâmico integra forças que falam árabe,
inglês, francês, tchetcheno, russo, turco, e mais”, nota Alterman.
Fonte:http://www.publico.pt/mundo/noticia/estado-islamico-espalha-o-caos-a-caminho-da-desejada-guerra-apocaliptica-global-1700334

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