Segundo Wikileaks promotor Alberto Nisman se reunia frequentemente com agentes da CIA e do FBI

Alberto Nisman apareceu morto com um
tiro na cabeça disparado com sua arma pessoal. Promotor havia pedido que
Cristina Kirchner fosse chamada para depor. Wikileaks revelou que ele se reunia
frequentemente com agentes da CIA e do FBI
O promotor Alberto Nisman apareceu
morto com um tiro na cabeça disparado com sua arma pessoal em um apartamento
localizado a poucas quadras da Casa Rosada, a sede do governo. Seu corpo foi
encontrado nas primeiras horas desta segunda-feira (19), dias depois de ter
acusado Cristina Kirchner de encobrir os responsáveis do atentado que matou
dezenas de pessoas na AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), em julho de
1994.

O procurador se transformou em uma
estrela de televisão e dos meios de comunicação oligopolistas que deram ampla
cobertura às suas sonoras denúncias, geralmente vazias de provas. Nisman era
para a grande mídia algo como se tornou o juiz paranaense Sergio Moro para a
imprensa tradicional brasileira.
Os principais dirigentes oposicionistas
haviam viajado de seus respectivos estados para Buenos Aires a fim de
participar nesta segunda-feira de uma exposição de Alberto Nisman na Câmara dos
Deputados, em que havia prometido que apresentaria provas sobre a interferência
de Cristina na investigação sobre o atentado terrorista de 1994.
Segunda essa versão do promotor, a
presidenta quis evitar que fossem investigados suspeitos iranianos. A morte de
Alberto Nisman motivou comoção nacional a 10 meses das eleições presidenciais, enquanto
os adversários do governo não estão conseguem superar suas diferenças internas
para compor uma coalizão unitária.
“Os dados da autópsia de Alberto Nisman
estarão prontos à noite, o que podemos adiantar é que sua morte aconteceu antes
do jantar [de domingo]… estava sozinho e a porta do apartamento estava fechada
com chave”, informou a promotora Viviana Fein.
“Pedimos aos jornalistas que nos deixem
trabalhar”, disse Viviana diante de um enxame de repórteres que a esperavam na
porta do elegante prédio em que ele residia, onde o corpo jazia dentro do
banheiro junto da arma com a qual o disparo foi feito.
Como os dados da perícia forense ainda
não foram divulgados, seria irresponsável arriscar se o promotor que
investigava o atentado da associação mutual judia AMIA se suicidou ou se foi
assassinado. Em todo caso, é evidente que este fato sangrento carrega consigo
uma consequência política: prejudica o governo da presidenta Cristina Kirchner,
que mantém uma alta popularidade e deve exercer sua influência nas eleições em
que seu sucessor será escolhido.

Documentário:
A verdade sobre o atentado contra a AMIA

Cristina: Distância diplomática dos EUA
e de Israel
O governo de Cristina mantém relações
frias com Washington há anos, uma ligação que se enfraqueceu ainda mais quando
Buenos Aires se aproximou do Irã.
“Tudo isto que aconteceu é muito raro,
não vamos cair em teorias conspiratórias, mas também não seremos ingênuos ao
tentar entender as coisas que estão em jogo”, afirmou Atilio Borón, pesquisador
universitário e ex-secretário da CLACSO (Conselho Latinoamericano de Ciências
Sociais).
“A primeira coisa a se fazer é
responder esta pergunta, quem sai muito prejudicado com este fato?
Indubitavelmente é o governo argentino”, acrescentou Atilio Borón em
declarações concedidas nesta segunda-feira a uma emissora portenha. TVs, rádios
e sites modificaram sua programação para dedicar atenção total ao crime do ano.
Um dos apresentadores estatais do grupo
Clarín afirmou estar quase certo de que o promotor foi assassinado para evitar
que prejudicasse Cristina. Com linguagem demagógica, argumentou “nas ruas todo
mundo diz que Nisman foi assassinado”.
“Isto dá sensação de impunidade… nisto
há traços mafiosos”, afirmou Marcelo Tinelli, um popular apresentador de
programas frívolos, presidente do clube San Lorenzo, quem, segundo alguns
observadores, sonha em ser o Silvio Berlusconi do Pampa Argentino.
Se os partidos de oposição não
demonstraram capacidade para formar uma aliança forte, os partidos de fato têm
capacidade para criar um estado de angústia nacional e semear um clima de desestabilização.
Possivelmente, o partido da mídia, junto à corporação jurídica, sejam as forças
mais hostis à Casa Rosada.
Durante o fim de semana, os jornais
tradicionais publicaram com grandes manchetes o anúncio do promotor Nisman
sobre as revelações que faria nesta segunda-feira no Parlamento. No Clarín,
publicou-se uma notícia sobre o “fim de um ciclo” iniciado em 2003 pelo
ex-presidente Néstor Kirchner, continuado por sua esposa e atual chefa de
Estado.
Promotor amigo do FBI e da CIA
Dezenas de papéis revelados pelo
Wikileaks mostraram que o promotor Albert Nisman se reunia frequentemente com
representantes do governo norte-americano, a quem consultava sobre como levar
adiante o processo pelo atentado terrorista contra a entidade judaica em 1994
em que houve 85 mortos e 300 feridos. Os agentes da inteligência
norte-americanos repetiam regularmente que Nisman deveria acusar o Irã.
“Não é preciso seguir a pista síria,
nem as conexões locais [dos terroristas] porque isto pode enfraquecer as
acusações contra os iranianos”, disseram agentes do FBI consultados por Nisman,
segundo um dos papéis obtidos pelo Wikileaks.
Santiago O Donnell, editor do jornal
Página12 e autor de um livro baseado em informações do Wikileaks, afirmou que a
Embaixada dos Estados Unidos estava muito preocupada com o curso da
investigação do atentado contra a AMIA, e que o assunto aparece em 196
comunicações da missão diplomática norte-americana.
O acadêmico Atilio Borón argumentou que
Nisman não era um promotor apegado a normas jurídicas, mas um elemento que
operava politicamente segundo ordens de Washington.
“Ele ia regularmente à Embaixada
receber instruções do FBI, da CIA e… com essa gente pesada não se brinca, eles
em qualquer momento podem decidir eliminar alguém que tenha ajudado, mas que já
deixou de ser útil”, disse Borón. Do seu ponto de vista, ainda não se pode
saber se Nisman se suicidou ou se foi assassinado, e convém ter como uma das hipóteses
que Washington o tenha porque não tinha prova para fundamentar suas denúncias.
“Isto que aconteceu com Nisman não pode
ser analisado como uma questão local… poucas horas depois de ele aparecer morto
houve um comunicado do governo de Israel.. tudo isso acontece 10 dias depois do
atentado em Paris contra a Charlie Hebdo, 9 dias depois dos ataques ao
supermercado judeu de Paris”.
“Esta morte se insere em um marco mais
amplo que é o que alguns comentaristas chamam como a grande guerra do ocidente
contra o Islã”, afirmou Atilio Borón.
Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/quem-interessava-morte-promotor-argentino-alberto-nisman.html

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