Por que nosso celular está sendo mais vigiado do que nunca?

Se você acreditava que as técnicas de espionagem high-tech eram
exclusivas de espiões — sejam eles os “clássicos”, que usam sobretudo e
chapéu, ou mesmo os ultrassecretos, como James Bond — e que você
dificilmente teria alguma ligação com elas, saiba que todo este conceito
foi mudado para algo que habitualmente você carrega no bolso: o seu
celular.

Hoje, é cada vez mais comum que autoridades grampeiem os telefones
móveis, registrando ligações, acompanhando mensagens e descobrindo os
locais nos quais você esteve.  E isso não acontece apenas com quem está
envolvido diretamente com alguma situação suspeita.
Registros mostram que até as pessoas que não possuem nenhum
relacionamento direto com algo ilegal podem ter seus celulares vigiados
apenas por conhecerem ou terem sido vistas próximas de algum suspeito.
Além disso, tanto iPhones como Androids se tornaram os espiões mais
comuns dos últimos anos — GPS, Foursquare, câmera e microfone são alguns
dos itens que registram e apontam informações importantes, com dados
que “vigiam” todos os seus passos. Conheça mais sobre esse mundo da
“espionagem portátil” e como ela pode invadir a sua privacidade.

 

Mais tecnologia = menos privacidade

Os avanços tecnológicos não trazem somente mais comodidade e
praticidade, eles facilitam (e muito) a troca de informações. Assim, é
cada vez mais comum a compra e o uso de celulares, que, além de
conectarem as pessoas, se tornaram minicomputadores, câmeras digitais e
gravadores — detalhes que fizeram o uso de smartphones uma necessidade
no dia a dia. 
(Fonte da imagem: Divulgação/Apple)
No entanto, este aumento considerável no número de telefones também
se tornou um atrativo para as autoridades. Agora, é mais fácil conseguir
os registros de ações de suspeitos — basta acessar os dados registrados
pelas companhias telefônicas. E isso está se tornando um recurso
bastante frequente.
A prova está no documento liberado este ano nos Estados Unidos. O
relatório apresenta os altos números e os tipos de solicitações feitas
por autoridades às operadoras de telefonia móvel — pedidos estes que
eram justificados como recursos para “aplicação da lei”. 

 

Celular 007: o verdadeiro agente secreto

Só no ano passado, agências policiais federais e estaduais americanas
fizeram mais de 1,3 milhão de pedidos às operadoras visando obter os
dados dos clientes. O documento ainda mostrou que, desde 2007, houve um
aumento anual de 15 por cento deste tipo de solicitação.
Como era de se esperar, o FBI também é adepto da espionagem
telefônica. Entre os dados liberados, foi apontado que mesmo a agência
de investigação mais conhecida do mundo faz solicitações indevidas.
Tanto que pedidos de vigia do FBI já foram negados e as companhias
telefônicas chegaram a declarar que existem abusos no rastreamento
telefônico por parte das autoridades. 
(Fonte da imagem: Thinkstock)
Todo este quadro de irregularidades e invasões de privacidade
apresenta outro grande dilema: quem vigia quem quanto à forma que as
próprias autoridades utilizam os dados das operadoras? Estaremos tão
expostos assim? Quem poderia nos salvar?

 

Constituição brasileira x espionagem

E não é somente na terra do Tio Sam que este tipo de dilema vem
assombrando a privacidade telefônica dos cidadãos — os brasileiros
também possuem bons motivos para estarem de olho neste assunto. Nas
terras tupiniquins, novos exemplos de abuso quanto ao uso de escuta por
parte das autoridades também são constantemente registrados. Em 2009,
por exemplo, muitas dessas denúncias foram investigadas por uma CPI. 
(Fonte da imagem: Thinkstock)
No nosso país, a Constituição já garante o sigilo das comunicações
telefônicas dos brasileiros, mas, em casos que envolvam investigação
criminal ou instrução processual penal, a quebra de tal privacidade pode
ser determinada por um juiz. O problema é que, mesmo com uma lei (Lei
9.296/96) que regulamenta todo o funcionamento da quebra de sigilo,
ainda há muitos questionamentos quanto a real eficácia da atual
legislação.
Um bom exemplo disso está nos dados divulgados pela Comissão
Parlamentar de Inquérito das Escutas Telefônicas Clandestinas. Apenas em
2007, por exemplo, 409 mil autorizações judiciais de captação e
gravação de conversas telefônicas foram concedidas.
E é por esse motivo que a regulamentação brasileira quanto à
“espionagem telefônica” é alvo de 23 projetos de deputados e de um
projeto do Senado, que visam a reforma do Código de Processo Penal —
agora, se todos eles sairão efetivamente do papel, já é outra história.

 

Monitorando todos os seus passos

Seu celular pode lhe oferecer muitos momentos de felicidade — lhe
salvando de uma fila de espera com um jogo divertido, registrando as
imagens de um passeio inesquecível e conectando você ao maravilhoso
mundo da internet para ler o Tecmundo em qualquer lugar que estiver. 
Mas saiba que tudo isso pode ter um preço não muito agradável: a sua
privacidade. E não estamos falando apenas das informações registradas
pelas companhias telefônicas, mas sim da espionagem feita pelo seu
próprio telefone móvel — que pode estar registrando todos os seus passos
sem você nem ao menos imaginar.
O Carrier IQ exemplifica bem isso. Ano passado, tal aplicativo causou
furor entre diversas pessoas, pois foi comprovado que ele estava
embutido em alguns aparelhos celulares verificando tudo o que o dono do
dispositivo estava fazendo — mesmo este estando offline. 
Trevor Eckhart foi o responsável por descobrir este “espião” que
registrava cada tecla pressionada, além de compartilhar várias
informações para fora do aparelho — muitos desses dados não possuíam nem
a permissão de serem divulgados, como a localização da pessoa, por
exemplo.
(Fonte da imagem: Thinkstock)
Tanto celulares com Android quanto com iOS entraram nessa
“brincadeira”, e muitas companhias (Nokia, Apple, Samsung etc.) tiveram
que se explicar e solucionar o problema. A questão, no entanto, é que
tal “ameaça” pode ter sido contornada, mas nada impede que novos
aplicativos espiões estejam infectando os dispositivos neste momento. 
Moral da história: tudo isso acaba por nos mostrar o quão suscetíveis
estamos (e o alto preço que pagamos) ao aderirmos à conectividade
excessiva e ao mundo não tão transparente —para a maioria das pessoas,
pelo menos — das tecnologias. Você estaria disposto a pagar por este
preço?
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