“Primavera Latina”? Depois do Paraguai, Bolívia teme GOLPE de estado. Presidente do Equador admite estarmos diante de uma “GUERRA não convencional”

Primavera
Latina?

A América Latina é o alvo da Tirania Globalista!
Temos que ter cuidado com convocações para “irmos às ruas”, com
protestos motivados por movimentos suspeitos, assim como aconteceu com a Primavera
Árabe, onde os confrontos violentos eram provocados por mercenários
contratados.




– Governo da Bolívia teme um golpe de Estado

O governo de Evo Morales expressou neste final de semana a sua preocupação com
a possibilidade de estar sendo preparado um golpe de Estado contra a sua
administração perante o protesto de polícias.

Os “sinais” de violência que se verificam nos protestos policiais de
sexta-feira “podem estar construindo um cenário de golpe”, afirmou a
ministra da Comunicação, Amanda Dávila.

“Perante à violência que vimos na sexta-feira, face a estes indícios que
estamos a observar a partir dos relatos da imprensa, dos relatórios dos
serviços de inteligência que estão chegando, temos aqui um cenário muito
preocupante”, afirmou.

O principal relatório fazia referência aos violentos distúrbios em várias
cidades do país, sobretudo na capital, La Paz, onde centenas de agentes
saquearam o edifício onde funcionam os serviços de inteligência da Bolívia, o
Tribunal Disciplinar da Polícia e a Interpol, tendo queimado arquivos.

Segundo a ministra, as mulheres dos polícias mostraram que “não há essa
intenção política, que eles querem dialogar”, contudo, insistiu no fato de
ter de se resolver este conflito. “Caso contrário, estamos a entrar num
cenário de golpe de Estado”, apontou Dávila.

Uma comissão de ministros e os dirigentes dos polícias têm mantido reuniões
preliminares desde a última noite sobre a reivindicação de melhores salários
para os agentes que, até ao momento, se têm revelado infrutíferas.

As autoridades e os agentes tentaram dialogar novamente, depois de a segunda
tentativa de diálogo ter sido suspensa na tarde de sábado por uma marcha de
protesto de polícias.

Fonte: Diário de Notícias

– “Estamos diante de uma guerra não convencional”, diz presidente do Equador

Em uma entrevista concedida à Carta Maior e aos jornais Página/12, da
Argentina, e La Jornada, do México, o presidente do Equador, Rafael Correa
analisa o que considera ser um dos principais problemas do mundo hoje: o poder
das grandes corporações de mídia que agem como um verdadeiro partido político
contra governos que não rezam pela sua cartilha. “Essa é a luta, não há luta
maior. Estamos diante de uma guerra não convencional, mas guerra, de
conspiração, desestabilização e desgaste”.

Representante de uma nova geração de líderes políticos da esquerda
latinoamericana, o presidente do Equador, Rafael Correa, foi lançado para a
linha de frente do cenário político mundial com o pedido de asilo político
feito, em Londres, pelo fundador do Wikileaks, Julian Assange. Há poucas
semanas, Assange entrevistou Correa e os dois conversaram, entre coisas, sobre
um tema de interesse de ambos: as operações de manipulação conduzidas pelas
grandes corporações midiáticas. Agora, durante sua passagem pela Rio+20, Rafael
Correa voltou com força ao tema.

Jornais: Há um argumento segundo o qual a liberdade de imprensa é propriedade
dos meios de comunicação empresariais. Imagino que essa não seja a sua opinião.

Correa: Não nos enganemos. Desde que se inventou a impressora a liberdade de
imprensa, entre aspas, responde à vontade, ao capricho e à má fé do dono da
impressora. Devemos lutar para inaugurar a verdadeira liberdade de imprensa que
é parte de um conceito maior e um direito de todos os cidadãos, que é a
liberdade de expressão, que defendemos radicalmente. No entanto, o poder
midiático que faz negócios com o objetivo de ter lucro, até isso quer
privatizar. Então, se eles têm tanta vocação para comunicar, como dizem, que o
façam sem finalidades lucrativas, porque para mim isso é uma contradição.

Este é um grande problema na América Latina e também em nível planetário. Tenho
tomado conhecimento que existem posições semelhantes às nossas, mas houve um
tempo em que nos sentíamos muito sozinhos, quando fomos vítimas de um ataque
tremendo por não abaixar a cabeça diante de um negócio muitas vezes corrupto e
encoberto sob a capa da liberdade de expressão. Essa é a luta, não há luta
maior.

Jornais: presidente, nestes dias foram divulgados telegramas pelo Wikileaks
onde apareceram jornalistas equatorianos que eram considerados informantes pela
embaixada dos Estados Unidos. Isso confirma as hipóteses levantadas quando você
foi vítima de um golpe de Estado.
Correa: As mentiras deles sempre acabam sendo derrubadas. Entidades que
financiam esses empórios midiáticos, certas organizações que, em nome da
sociedade civil, nos denunciam ante a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, a SIP, ante todos os lados. Agora vemos que esses senhores são
identificados via Wikileaks como informantes da embaixada (estadunidense).
Wikileaks que nunca é publicado pela maioria da imprensa comercial. Não é só
isso. Essa gente é financiada pela Usaid, que vocês conhecem. A Usaid financiou
com 4,5 milhões de dólares a estes supostos defensores da liberdade de
expressão, supostamente para fortalecer a democracia e a ação cívica. Na
verdade, para fortalecer a oposição aos governos progressistas da América
Latina e os povos da região tem que reagir contra esse tipo de prática.

Independentemente da solicitação do senhor Assange – ele solicitou asilo
político -, ele disse que quer vir para o Equador para seguir cumprindo sua
missão em defesa da liberdade de expressão sem limites, porque o Equador é um
território de paz comprometido com a justiça e a verdade. Isso que o senhor
Assange disse é mais próximo da realidade do Equador do que as porcarias que o
poder midiático publica todos os dias.

Sabemos que o senhor ainda não tomou uma decisão sobre a situação que está
atravessando alguém que revelou informações secretas sobre conspirações dos
Estados Unidos e está pagando com a prisão por ter trabalhado pela liberdade de
imprensa.

Correa: Se, no Equador, alguém tivesse passado a centésima parte do que passou
Assange, nós seríamos chamados de ditadores e repressores, mas como o que
Assange divulgou afeta as grandes potências e isso evidencia uma moral dupla e
como os Estados nos tratam por meio de suas embaixadas, então é preciso aplicar
todo o peso da lei contra Assange. E o chamam de violador.

Eu não quero antecipar minha decisão. Recebemos o pedido de asilo, analisaremos
as causas desse pedido e tomaremos uma decisão quando for pertinente. Ele está
em nossa em nossa embaixada em Londres sob a proteção do Estado equatoriano.

É claro que há aqui uma dupla moral, uma para os poderosos e outra para os
débeis, uma para os que querem manter o status quo e para sua imprensa, e outra
para os governos que querem mudar esse status quo e para a imprensa
alternativa. Todos os dias há julgamentos em países desenvolvidos contra
jornais. Neste caso não há problema, porque isso é civilização, mas, processar
em nosso país um jornal ou um jornalista é qualificado como barbárie. E não é
verdade que nós criminalizamos a opinião, pois em nosso país todos os dias
publicam tudo, todos os dias publicam que há falta de liberdade de expressão.
Qualquer um pode dizer que o governo é bom ou mau, que é competente ou
incompetente. Mas o que não pode se dizer em um meio de comunicação é que o
presidente, ou qualquer cidadão, é um criminoso de lesa humanidade e que ele
disparou sem aviso prévio contra um hospital, porque isso é difamação, isso é
delito em qualquer país.

O caso Assange pode dar origem a uma tensão diplomática entre Equador e
Grã-Bretanha?


Correa: Isso é a última coisa que queremos, mas nós não vamos pedir permissão a
nenhum país para tomar decisões soberanas. O Equador não tem mais alma de
colônia nem alma de vassalo. Se dar asilo, refúgio ou residência a fugitivos da
justiça provocasse deterioração, a relação da América Latina com os Estados
Unidos estaria deterioradíssima. Porque, provavelmente, Argentina, Brasil,
México e outros países não devem estar de acordo que qualquer fugitivo que
viole a justiça. Esse não é o caso do senhor Assange, mas sim de corruptos como
os banqueiros que quebraram o Equador em 99 e fugiram para os Estados Unidos,
onde gozam hoje de uma vida bastante cômoda.

Vocês têm um Murdoch no Equador?

Correa: No Equador, temos seis famílias que representam heranças familiares,
não é propriedade democrática, um capitalismo popular onde há 10 mil acionistas
em um empório. Os meios de comunicação no Equador são manejados por meia dúzia
de famílias, que decidem o que os equatorianos devem saber e conhecer. Vocês se
dão conta da vulnerabilidade que temos como sociedade? A informação depende dos
interesses e dos caprichos de meia dúzia de famílias. Mas se um governo
soberano e digno não as chama para consultar sobre o nome dos ministros ou
sobre a indicação de embaixadores, como ocorria antes, vão com tudo para cima
desse governo porque ele não se submete aos seus caprichos. É um problema
mundial, mas em outros países é atenuado com participação, profissionalismo
muito profundo, uma ética muito forte, tudo o que brilha por sua ausência aqui no
Equador.

Presidente, um funcionário da Usaid acaba de dizer que eles estão ajudando as
oposições a estes governos.

Correa: Franqueza anglo-saxã.

Impunidade?

Correa: Impunidade e arrogância.

Essa ideia nos fala de um tempo da informação como arma de guerra e a América
Latina sofre uma verdadeira invasão dessas fundações como a USAID, a NED, o
IRI. Isso não torna muito perigosa a nossa situação? A presença das ONGs destas
fundações não é perigosa para o Equador?

Correa: Oxalá consigamos despertar os povos latino-americanos para essa
situação. As direitas, os grupos de poder, sabem que nas urnas não conseguirão
nos derrotar. Daí as campanhas contínuas de desgastes, de propaganda, de
difamação, de enfraquecimento e desestabilização. Nós vivemos isso desde os
primeiros dias de governo. Desde o primeiro dia de governo. O mesmo ocorre na
Venezuela, na Bolívia, na Argentina e em todos os governos progressistas da
região. Sofremos as campanhas desses meios que são a vanguarda do capitalismo,
do status quo dos partidos tradicionais de direita que se afundaram por seus
próprios erros, para difamar, para distorcer a verdade com a cumplicidade de
veículos da mídia internacional.

Essa é a contradição de que fala Ignacio Ramonet. Na Europa hoje há desemprego,
estagnação, resgate de milionários, resgate de bancos e não de cidadãos, e os
jornais dizem que isso é necessário, que é sério, técnico e correto. Que as
pessoas morram de fome, precisamos salvar o capital! Enquanto isso, em países
como o Equador, que é um dos que mais crescem na América Latina, que reduziu a
pobreza, gerou mais emprego, tem a taxa de desemprego mais baixa da região e da
história, todos os dias nos dizem que isso é populismo e demagogia, que é
preciso mudar de governo.

Estamos ante uma campanha propagandística para defender os poderes fáticos que
sempre dominaram nossos países. A direita perdeu as eleições nos Estados Unidos
e agora chegam essas organizações para financiar esses grupos na América
Latina. Estamos diante de uma guerra não convencional, mas guerra, de
conspiração, desestabilização e desgaste.

Por isso pergunto sobre o tema da informação como arma de guerra, como a arma
letal antes do primeiro disparo.

Correa: Estou convencido disso. Alguns ainda imaginam a imprensa, sobretudo na
América Latina, como o quarto poder nascente, que floresceu quando chegaram as
democracias, quando ocorreram avanços técnicos e se multiplicaram as
publicações, quando se avançou na alfabetização e as grandes massas passaram a
poder ler. Esse poder impediria que o poder político, o poder do Estado,
ultrapasse certos limites. Assim chegou a desinformação. Lembremos, por
exemplo, do affair Dreyfus na França, quando por racismo e xenofobia se acusou
um capitão judeu, como denunciou Emile Zola em seu famoso editorial “Eu acuso”.
Essa imprensa limitava os excessos do poder político, mas esse vigoroso e
ingênuo cachorrinho, bem intencionado, que lutava pelos interesses dos
cidadãos, converteu-se de repente em um mastim feroz, com um poder ilimitado,
raivoso, que não só tenta encurralar o Estado como também os próprios cidadãos.

O poder midiático na América Latina, como ocorre no Equador, é frequentemente
superior ao poder político. Precisamos tirar certos estereótipos de cena ou do
ambiente de certa burocracia internacional como alma de ONG, como a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos que fala de pobrezinhos jornalistas e de
malvados políticos. Isso não é certo. Os políticos são, muitas vezes,
patrióticos. A antipatia que certos jornalistas alimentam, desfiando seus ódios
e amarguras, acaba fazendo com que se metam inclusive em questões pessoais, com
a família, etc. Então, vejamos a realidade. Trata-se de tabus e nos ensinaram a
ter medo de criticar esses negócios, como se, criticando-os, estaríamos
criticando a liberdade de expressão. Esses são os negócios da má imprensa.

Presidente, viremos a página e passemos à crise

Correa – É que esse tema (da mídia) me apaixona. É um tema acadêmico que me
apaixona, ao qual dedicarei meu tempo quando sair da presidência. Pretendo me
dedicar a ele, investigar e escrever porque se trata de um problema gravíssimo,
porque estamos nas mãos de um poder midiático que superou inclusive o poder
financeiro e político, e domina o mundo.

Você resumiu ontem em uma palavra o documento final da Rio+20, classificando-o
como “lírico”…

Correa – É assim. Não há compromisso concreto. Podem verificar. Onde há um
compromisso em cifras, por exemplo, com o limite de emissões de gases,
compensações, acordos, acordos vinculantes como seria uma declaração de
direitos da natureza em um tribunal internacional do meio ambiente, como propôs
o Equador. Não há nada disso. Fala-se de cuidar melhor do planeta, mas não há
um compromisso concreto. O avanço é muito pequeno.

A que atribui a ausência dos Estados Unidos e da Alemanha? Elas podem ter
contribuído para essa falta de compromissos concretos?

Correa – Vai mais além. O problema não é técnico. Todo mundo sabe qual é o
problema, todo o mundo sabe quais são as respostas. O problema é político. Quem
gera os bens ambientais e quem consome esses bens ambientais? Se os países
ricos ou os países em desenvolvimento podem consumir gratuitamente um bem que
outros geram por que é que vão se comprometer a compensar e cuidar. Não farão
isso a não ser que esteja em perigo evidente sua própria existência ou seus
próprios interesses.

Então, o problema é político, é a relação de poder. Imagine que a situação
fosse a inversa, que a Floresta Amazônica, por exemplo, estivesse nos Estados
Unidos e que eles fossem geradores de bens ambientais e que nós dos países em
desenvolvimento fôssemos os consumidores. Já teriam nos invadido em nome dos
direitos humanos, da justiça, da liberdade, etc., para exigir compensações.
Então, esse é um problema de poder. Enquanto não mudarem as relações de poder,
muito pouco se irá avançar.

Considera então que o saldo provisório da Rio+20 é um fracasso?

Correa – Sim. Não se conseguiu avançar quase nada. Não há compromisso concreto,
nada concreto. Nem sequer dinheiro. Houve uma reunião do G-20 no México e a
maioria, 80% dos que estavam lá, regressaram para suas casas. Não vieram para a
Rio+20. Não interessa. Apenas alguns poucos vieram para a Cúpula, sobretudo
latino-americanos.

Houve também a Cúpula dos Povos, um encontro muito interessante.

Correa – Quisemos participar, mas não foi possível, estava muito longe.
Infelizmente foi um problema de logística. Mas vamos ter um evento de direitos
da natureza, paralelo à Cúpula, nos mesmos locais da Cúpula, para o qual
convidamos 400 dirigentes de organizações sociais alternativas, progressistas
de esquerda que buscam a justiça de nossa América e do mundo inteiro. O
presidente Evo Morales também participará dessa conferência.

Eu queria perguntar-lhe sobre o que representam estas alianças como a do Pacífico
(Colômbia, Chile, Peru e México) e o anúncio feito pelo presidente Felipe
Calderón do Transpacífico, que é algo novo. Isso pode ser visto como uma ameaça
à integração e à unidade da América Latina?

Correa – Bom, o maior problema em essência sobre o tema do cuidado com o meio
ambiente e que também está na base da crise da Europa e dos Estados Unidos é
que tudo foi mercantilizado. Eles não querem ver isso porque afeta os
interesses dominantes. O mercado é uma realidade econômica que não podemos
negar, mas o grande desafio da humanidade é que a sociedade deve conseguir
dominar o mercado. O que temos hoje é o mercado dominando a sociedade e as
pessoas, mercantilizando tudo. Como o mercado só se interessa pelo que é
mercadoria, pelo que tem preços explícitos, não administra adequadamente bens
públicos como o meio ambiente. Por isso pode consumir irresponsavelmente bens
ambientais, bens públicos globais, depredar a natureza, etc., porque não têm
preços explícitos, porque não são mercadoria.
Então, quanto mais se ampliar essa lógica do mercado, mais esses problemas se
agravarão e os perigos serão ainda maiores para a conservação do planeta. Eu
diria que nós somos muito críticos destes tratados de livre comércio, somos
muito críticos da mercantilização da vida e da humanidade em geral. Esse é um
dos grandes desafios que enfrentamos. Insisto, o mercado é um fenômeno
econômico irrefutável, mas o grande desafio é fazer com que as sociedades
dominem o mercado e não o contrário.

Senhor presidente, que medidas os países da América Latina deveriam tomar para
não perder o rumo da histórica na direção de uma integração regional soberana e
progressista. Como vê os avanços no Mercosul, na Unasul e na Comunidade Andina
de Nações (CAN)?

Correa – Avançou-se como nunca antes. Isso não quer dizer que estejamos bem.
Teremos que avançar muito mais rápido. Creio que há uma vocação concreta e uma
posição integracionista sincera, não uma integração mercantilista como havia
antes. O Mercosul nasceu na noite neoliberal dos anos 90. A CAN nasceu a todo
vapor e depois diminuiu. A integração mercantilista não quer fazer grandes
sociedades de nações, mas sim grandes mercados, não fazer cidadãos de nossa
América, mas sim consumidores. A concepção da Unasul é diferente. Nós temos uma
concepção integral, onde uma parte é comercial, que sempre é importante, mas
não é o mais importante, e as outras partes tem a ver com conectividade, nova
arquitetura financeira regional, harmonização de políticas, políticas de
defesa. Oxalá consigamos avançar também em políticas trabalhistas para que
nunca mais caiamos na América Latina na armadilha de competir para atrair
investimentos, deteriorando e precarizando as forças de trabalho. Ao invés de
atrair capitais na base do suor e das lágrimas de nossos trabalhadores,
pensamos em outro mundo. Como disse, creio que avançamos, mas precisamos ir
muito mais rápido.

O senhor tocou de passagem o tema do Conselho de Defesa Sulamericano, que está
objetivamente estancado, e seu país sofreu um ataque estrangeiro em 2008. Na
sua avaliação, com a chegada do presidente Santos na Colômbia, a hipótese de
tensões entre Colômbia e Equador está completamente dissipada?

Correa – As relações bilaterais entre Equador e Colômbia gozam de um
extraordinário momento. Há uma grande coordenação com o governo do presidente
Santos. A Colômbia sempre foi o vizinho com o qual tivemos a melhor relação em
nossa história. Infelizmente, essa história, séculos de irmandade, foi rompida
pela traição de um presidente como Uribe. Mas, graças a deus, com o governo do
presidente Santos isso foi superado e creio que ele também tem uma vocação
integracionista muito profunda e apoia – de fato, tem apoiado – a proposta do
Conselho de Defesa.

O Conselho de Defesa teve seus primeiros estremecimentos com o anúncio da
radicação de tropas dos Estados Unidos na Colômbia. Essa possível radicação de
tropas norte-americanas na Colômbia está definitivamente abortada?

Correa – Não tenho maiores conhecimentos a respeito desse assunto. Até onde sei
há uma estreita colaboração norteamericana com o pretexto da luta antidrogas e
oxalá que a ajuda se concentre aí. Mas temos que fazer um esforço de bastante
ingenuidade para nos convencermos disso porque muitas vezes se fazem outras
coisas com essas supostas ajudas, sobretudo com governos que não sigam a linha
de Washington.

A pergunta anterior está associada a outras situações graves como a
remilitarização com novas bases no Panamá e outros três centros operacionais do
comando Sul , uma base nova no Chile e nas Malvinas o grande problema é a base
britânica ali instalada. Toda esta expansão dos Estados Unidos não é ameaçadora
para a região?

Correa – Nós queremos nos convencer que com Barack Obama, que acreditamos ser
uma boa pessoa, a política internacional dos EUA mudou, mas as evidências nos
mostram que não é assim, que tudo continua lamentavelmente igual, sobretudo no
que diz respeito à América Latina, cujos governos comprometidos com justiça,
dignidade e soberania passaram a ser vistos como uma ameaça para seus
interesses. Devemos estar muito atentos a essa presença das forças armadas
norte-americanas em nossa América e a esse processo de rearmamentismo que está
ocorrendo nesta época tão difícil e complexa.

Fonte: Carta Maior, La Jornada e Página/12

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