Google usa ferramenta de mapeamento de ruas “Street View”,para espionar vida privada das pessoas

Após
meses de negociação, Johannes Caspar, funcionário do governo alemão encarregado
da proteção à privacidade, obrigou o Google a mostrar detalhes das informações
que os carros do Street View vinham coletado a respeito da vida privada de
milhões de cidadãos.

Trechos
de e-mails, fotografias, senhas, mensagens de programas de bate-papo, textos
postados em sites e redes sociais – todo tipo de comunicação privada – foram
casualmente apanhados enquanto os carros especialmente equipados fotografavam
as ruas do mundo.
“Foi
uma das maiores violações das leis de proteção de dados que já vimos”,
disse Caspar sobre as informações pelas quais ele teve de lutar desde o fim de
2010. “Ficamos furiosos.” O Google pode ser uma das empresas mais
prósperas e inovadoras do mundo, mas também irrita muita gente: os concorrentes,
que se queixam de práticas desleais; representantes de governos, que acusam a
empresa de ignorar leis locais; defensores da privacidade, segundo os quais a
empresa tira informações demais de seus usuários.
Nesta
semana, reguladores europeus que combatem a formação de cartéis deram à empresa
um ultimato, dizendo-lhe para mudar seu ramo de buscas se quiser evitar
consequências. Os reguladores americanos podem estar perto de fazer o mesmo.
A
importante ofensiva contra a formação de cartéis, que deve ocorrer a portas
fechadas em Bruxelas, pode marcar o início de um período difícil para o Google.
Nos Estados Unidos, um caso parecido nos anos 90 marcou o início da decadência
da Microsoft, a empresa de tecnologia mais temida da época.
Mas
ninguém deve contar com a derrocada do Google. A empresa demonstra incrível
habilidade para escapar de problemas. Basta perguntar a quem tenta
responsabilizar o Google por aquilo que o ministro australiano das
comunicações, Stephen Conroy, descreveu como “o maior caso de invasão de
toda a história da privacidade”.
A
coleta secreta de dados feita pelos carros do Street View levou à abertura de
inquéritos em pelo menos 12 países, sendo quatro inquéritos nos EUA. Mas o
Google ainda não apresentou uma explicação completa dos seus motivos para
coletar tais informações nem identificou os funcionários que sabiam da
operação. Nenhuma autoridade americana teve acesso às informações de cidadãos
americanos coletadas.
A
história de como o Google escapou de uma prestação de contas completa em
relação ao Street View ilustra não apenas a maneira com a qual as empresas de
tecnologia evitam as autoridades, mas também seu complicado relacionamento com
os consumidores. Google, Amazon, Facebook e Apple oferecem novas formas de
comunicação, aprendizado e entretenimento. Elas têm sob sua custódia material
sobre centenas de milhões de vidas – incluindo e-mails, fotografias reveladoras
e buscas por ajuda.
Troca.
Essa informação é cedida pelas pessoas. Mas há um preço: perde-se o controle, e
até o conhecimento, do destino de dados pessoais e de como elas são combinadas
numa identidade online que pode ou não se assemelhar à pessoa real da qual é
derivada. As regras que defendem a privacidade e proíbem escutas ilegais não
servem como referência, pois não acompanharam o avanço tecnológico.
Michael
Copps, que concluiu no ano passado dez anos de trabalho como comissário da
Comissão Federal das Comunicações (FCC), disse que os reguladores estavam
sobrecarregados. “A indústria se tornou mais poderosa, a tecnologia se
tornou mais presente, e a situação chegou a um ponto em que não há muito a
fazer.”
Embora
viva de informação, o Google revela pouco a respeito do seu funcionamento
interno, como revela o episódio do Street View. Quando as autoridades alemãs
obrigaram a empresa a admitir que seus carros estavam copiando dados não
protegidos a partir das redes Wi-Fi, a empresa pôs a culpa num erro de
programação. E disse que não tinha intenção de usar a informação em produtos do
Google.
A
FCC não partilha esse ponto de vista, e disse, no mês passado, que a intenção
da captação de informações era justamente “o possível uso em outros
produtos”. Disse também que o engenheiro compartilhou o código com outros
membros da equipe do Street View. Para a FCC, a coleta de dados não foi
acidental.
Embora
a FCC não tenha identificado infrações à lei americana, a investigação foi
considerada inconclusiva, pois o engenheiro responsável citou a Quinta Emenda
da Constituição, defendendo-se da produção de provas contra si mesmo. O Google
foi multado em US$ 25 mil por obstrução à Justiça. O Google não quis dar
declarações sobre o tema. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
Fonte: Estadao
Please follow and like us:

Você pode gostar também

Deixe uma resposta