Pássaro espião geneticamente modificado de ‘Jogos Vorazes’ não está muito longe da realidade

Tordo, cruzamento de rouxinol e pássaro
espião, corresponde a nova forma de medo perante engenharia genética
Os
organismos geneticamente modificados não são muito populares hoje em dia, com a
exceção de um: o pássaro fictício que é personagem central do famoso filme e
trilogia de livros “Jogos Vorazes”. Trata-se do tordo, um cruzamento
entre um rouxinol e um pássaro espião geneticamente modificado chamado gaio
tagarela.

A
história de “Jogos Vorazes” se passa em um futuro fictício no qual os
adolescentes são obrigados a caçar e matar uns aos outros em competições anuais
criadas para entreter e reprimir uma população altamente controlada. O tordo
aparece pela primeira vez como um símbolo, quando Katniss Everdeen, a heroína,
recebe um broche que retrata o pássaro. Os broches de tordo se espalharam pelo
mundo real, mesmo que os pássaros continuem sendo ficção.
Assista o Trailer:  


“Eles
são pássaros engraçados, uma espécie de tapa na cara do Capitólio “,
explica Katniss no primeiro livro.
Esse
tapa na cara corresponde a uma nova forma de medo perante a engenharia
genética, quanto à possibilidade de organismos geneticamente modificados ou
seus genes escaparem dos laboratórios e causarem estragos. O tordo é apenas uma
dessas consequências não intencionais que resultam de uma criação fracassada do
governo, ao qual Katniss se refere quando fala no “Capitólio”. Mas ao
invés de ser um desastre, o pássaro é um lembrete bastante apreciado das
limitações do controle totalitário.
Infográfico:
ciência real na ficção científica
O
pássaro se originou, explica Katniss, quando os governantes modificaram uma
espécie não especificada de gralha para produzir uma nova criatura, um animal
chamado gaio tagarela, pertencente ao Estado. A intenção era de que os gaios
tagarelas funcionassem como gravadores biológicos dos quais ninguém
suspeitaria. Eles escutavam conversas e depois retornavam aos seus mestres,
reproduzindo-as.
Os
gaios tagarelas, todos do sexo masculino, foram abandonados à morte quando as
pessoas perceberam o que eles estavam fazendo. Como acontece com os organismos
geneticamente modificados de hoje, não se esperava que os gaios tagarelas
sobrevivessem na selva, mas eles cruzaram com rouxinóis e produziram um híbrido
resistente capaz de imitar sons e cantos humanos, e sobreviveram, para a
irritação do governo e o prazer da pessoas.
Deixando
de lado a dúvida quanto a se as gralhas realmente poderiam ter cruzado com os
rouxinóis – essa é uma espécie de conto de fadas, afinal de contas – a escolha
das espécies parece plausível. As gralhas, juntamente com os corvos, pertencem
a um grupo altamente inteligente de pássaros chamado de corvídeos.
E as gralhas
são ladras e espiãs por natureza, pois prestam atenção em onde as outras
gralhas escondem a comida, por exemplo, para roubá-la mais tarde. Os rouxinóis,
é claro, têm uma capacidade excepcional de imitar o canto de outros pássaros.
Coincidentemente ou não, Thomas Jefferson, um amante dos pássaros e da
liberdade, tinha um rouxinol como animal de estimação na Casa Branca.
Perguntei
a Joan Slonczewski, microbiologista e escritora de livros de ficção científica
que trabalha no Kenyon College, em Ohio, sobre o que ela acha do tordo.
Slonczewski, cujos livros mais recentes incluem um texto e um romance chamado
“The Highest Frontier” (“A Mais Alta Fronteira”, em
tradução livre), ministra um curso chamado “A Biologia na Ficção
Científica”. As ferramentas necessárias para modificar organismos já se
dissiparam amplamente na indústria e além dela.
“Hoje
qualquer um pode criar uma startup”, disse ela.
Isso
não é um exagero. Cada vez mais se faz biologia por conta própria. É possível
adquirir a tecnologia para copiar pedaços de DNA por algumas centenas de
dólares no eBay, como disse Carl Zimmer em matéria publicada no The New York Times
em março. Quanto a onde a biologia feita por conta própria pode chegar, Freeman
Dyson, um estudioso do Instituto de Estudos Avançados conhecido por suas ideias
provocativas, apresentou uma opinião no New York Review of Books em 2007. Ele
imaginou as ferramentas da biotecnologia sendo acessíveis a todos, inclusive às
pessoas que criam animais de estimação e às crianças, levando a “uma
explosão na diversidade de novos seres vivos”.
Mais
cedo ou mais tarde, escreveu ele, a mistura de genes feita por seres humanos
dará início a uma nova etapa da evolução. Ao longo desse processo, se Zimmer
estiver certo, o mundo pode ter de lidar com mais tordos feitos por conta
própria do que consegue suportar.
Fonte: IG
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