O governo brasileiro não acredita na “mudança climática”, afirma Rubens Ricupero

Diplomata
divulgou carta assinada por ambientalistas que critica postura brasileira na
condução da Rio+20. Conferência da ONU, afirmam, corre o risco de ser
irrelevante e representar um retrocesso
A
Rio+20 corre o risco de ser irrelevante e representar um retrocesso nas
discussões sobre o desenvolvimento sustentável. É o que afirma um documento
lançado nesta quarta-feira, em São Paulo, pelo fórum de ex-ministros do Meio
Ambiente e assinado por diversos ambientalistas.

“O governo não acredita na mudança climática”,
disse o diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente (1993-1994) e
principal articulador do documento. “Tenho dúvidas de que alguém do
governo brasileiro, à exceção da ministra do Meio Ambiente, tenha lido o
relatório da ONU sobre as mudanças do clima.”
A
carta publicada nesta quarta-feira afirma que a atual posição do governo
brasileiro diminui a importância do meio ambiente na Rio+20, inviabilizando
qualquer discussão sobre o desenvolvimento sustentável. “Voltaremos a um
ponto anterior à Rio 92″, disse a ex-senadora Marina Silva, uma das
signatárias do documento. Uma versão preliminar das proposições foi entregue ao
vice-presidente, Michel Temer, e a versão final será encaminhada à presidente
Dilma Rousseff.
Um
dos pontos mais criticados pelos especialistas é a falta de um plano de medidas
práticas que permitam a transição para uma economia de ‘baixo carbono’. Uma
economia de baixo carbono é aquela que usa fontes de energia renováveis, como
solar, eólica e hidrelétrica. “Emite o mínimo de gás carbônico e outras
substâncias que aceleram o efeito estufa”, disse Ricupero.
O
documento afirma que exceto no caso dos favorecimentos a aparelhos da linha
branca em 2008, como geladeiras, fogões e máquinas de lavar, de maior economia
de energia, o Brasil praticamente ignorou a questão climática nos pacotes de
estímulos adotados desde então. “As políticas econômicas e industriais
devem ser coerentes com a transição para uma economia de baixo carbono”,
defende o documento.
Na
opinião dos ambientalistas que assinam a carta, isso ocorre porque há um atraso
na implementação e na divulgação de planos previstos na Política Nacional de
Mudanças do Clima, estabelecida em dezembro de 2009. As medidas seriam capazes
de coordenar as políticas climáticas, industriais e de transporte de maneira
integrada.
Destaque
ao ambiente —
Os que assinam a carta também criticam a possibilidade da Rio+20
não dar o devido destaque para a questão ambiental, “a mais
importante”, dizem. Para eles, a degradação do meio ambiente impede o
desenvolvimento econômico e o social. “Não é possível falar de
desenvolvimento sustentável sem resolver a questão do meio ambiente”,
disse Ricupero.
O
governo brasileiro, por outro lado, defende que a conferência trate igualmente
dos problemas sociais, econômicos e ambientais. A justificativa para não dar
destaque às questões climáticas, por exemplo, seria a existência de uma
conferência específica para isso (a próxima será em novembro, no Qatar).
“Se
não discutirmos com ênfase os problemas ambientais na Rio+20 voltaremos a um
ponto anterior à Rio 92 – seria um retrocesso”, disse Marina Silva,
ministra de 2003 a 2008. “Se destruirmos as fontes de onde tirarmos
energia renovável, o social e o econômico estão condenados”, disse José
Goldemberg, físico e secretário do Meio Ambiente durante o governo Collor.
Pragmatismo
Goldemberg defende uma visão pragmática de proteção ao meio ambiente.
“Não é pelo amor às baleias ou pássaros que queremos preservar o
planeta”, ponderou. “Uma economia predatória, que gasta sem limite os
recursos naturais, destroi as bases do que se entende por uma economia
sustentável.”
O
físico afirma que o Brasil poderia se sair bem naturalmente, dado a quantidade
de recursos naturais à disposição do país e de sua matriz energética renovável.
De
acordo com Ricupero, a intenção não é ser partidário. “Ficamos
decepcionados com o posicionamento oficial do Brasil na Rio+20 e oferecemos uma
nova visão, livre de partidos”, disse.
Fonte: veja.abril
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