Itália e Portugal são as próximas vítimas da crise financeira?

A batalha para salvar a
Europa da crise atual se parece com um imenso barco com muitos buracos no casco
e poucas mãos para tapa-los. Ao conseguir estancar, temporariamente, a sangria
pela Grécia, agora são os rombos da Itália que crescem e são ainda mais
ameaçadores.

Mesmo com a aprovação do
Orçamento de 2012 pelo parlamento, o primeiro-ministro da Itália perdeu a
maioria e sua saída do governo é praticamente certa.
“O Silvio Berlusconi é
hoje o maior empecilho para a Itália. Ele é turrão, personalista, e não conta
mais com apoio algum do parlamento. Se ele realmente não resistir no cargo, o que
pode acontecer em questão de horas ou poucos dias, os mercados poderão dar
algum alívio para Itália num espaço curto de tempo”, avalia um analista de
banco estrangeiro no Brasil.
Em análise enviada a
clientes internacionais, o banco Goldman Sachs se mostra bastante preocupado
com a andar da carruagem na zona do euro. Os analistas do banco, que assinam o
documento, vêem no Banco Central Europeu um papel ainda central na resolução da
crise. Mas não é isso que vem acontecendo, adiando e agravando o quadro atual.
“Temos defendido que o BCE
continuará atuando com o programa de compras dos títulos (dos países em maior
dificuldade) para evitar uma apreensão dos mercados soberanos e uma situação
desordenada nos mercados europeus em geral. Ao mesmo tempo, temos sido céticos
de que Mario Draghi faça uma mudança da abordagem ‘passiva’, adotada pelo
sistema europeu até agora na condução dessas compras. Apesar dos apelos de
muitos observadores para o BCE adotar um esquema maior, mais ambicioso e
pro-ativo para compra dos títulos, duvidamos que ele vá seguir essa estratégia
tão cedo”, diz o relatório.
Em suas última
declarações, o presidente do BCE, Mario Dragui, repetiu o que seu antecessor,
Jean-Claude Trichet, não cansou de falar até deixar a instituição. “A atuação
do BCE como emprestador de último recurso para os governos realmente não está
dentro do mandato do BCE”, disse Dragui.
Certa ou errada, é fato
que a atuação do BCE não tem sido capaz de segurar a disparada do risco dos
títulos públicos italianos. A alta histórica do custo de carregamento dos
papéis já reflete uma situação muito próxima de incapacidade de pagamento e
insustentabilidade das contas públicas do país.
O primeiro-ministro
Berlusconi enfrenta agora a mesma situação vivida por Giorgos Papandreu na
Grécia. Mesmo assim, o esforço de estancar os buracos por onde escapa
rapidamente a credibilidade da Itália será hercúleo e com consequências mais
graves para a economia internacional, mas deve ser o único caminho.
“Se o governo italiano
puder restabelecer a sua credibilidade e, assim, ter novamente acesso ao
mercado com spreads (taxa de risco) mais baixos, um ciclo virtuoso de aumento
da confiança, crescimento e sustentabilidade podem surgir tanto na Itália
quanto, indiretamente, na da área do euro como um todo. Restabelecer a
credibilidade e confiança, no entanto, é mais fácil dizer do que fazer”,
avaliam os analistas do Goldman Sachs.
E “fazer” o que é preciso
na Itália parece ainda mais complicado. As reformas dos gastos públicos
exigidas do país encontram forte resistência política e o clima fica pior com a
falta de liderança e coalizão em torno do governo de Berlusconi.
“A seguir à possível saída
de Berlusconi teremos a dúvida sobre a formação do novo governo. O mais
provável é que os políticos de centro-esquerda assumam o poder. Mas eles também
vem se colocando contra as medidas de mais austeridade fiscal exigidas pela
comunidade européia para que a Itália seja salva do pior”, avalia o analista
ouvido pelo G1.
“A medidas apresentadas
até agora estão em linha com as anunciadas em anteriores planos de médio prazo
da reforma (fiscal). A forte resistência de grupos de interesse, no passado,
obstruiu a implementação das reformas. As tensões políticas e a fragilidade da
coalizão governista só aumentam a dificuldade de formular e concordar com as
mudanças necessárias para o contrato social. Neste contexto, aumentam os riscos
para a revisão trimestral do FMI, já aceita pela Itália, e que será iniciada em
15 de novembro. Mas também poderá dar um sinal crível para o mercado e
facilitar a transferência de recursos financeiros para o país sem uma estreita
condicionalidade (exigida pelo FMI)”, conclui o relatório do banco de
investimentos.
Enquanto a Itália se
debate, na Grécia o processo de formação do novo governo prossegue. A saída do
país da zona do euro não está mais na prioridade das discussões, o que gerou
algum alívio na agenda dos líderes Nicolas Sarkozy, da França, e Angela Merkel,
da Alemanha. Quem quer que assuma o comando na Grécia vai precisar dar mais uma
demonstração de apoio dos dois lados da política do país. Especula-se agora que
a liderança dos dois  partidos majoritários
escrevam uma carta pública formal, assumindo que aceitam o pacote de ajuda
financeira já acordado.
Aqui no Brasil vivemos uma
situação semelhante durante as eleições presidenciais em 2002. O país
enfrentava uma grave crise de confiança e chegou ao limite de sua capacidade
financeira, precisando de um novo pacote do FMI. Para receber os US$ 30 bilhões
do fundo, no maior pacote já oferecido por eles até então, todos os
pre-candidatos à presidência da república tiveram que assumir publicamente, que
manteriam a política econômica adotada por Fernando Henrique Cardoso, com o
tripé de metas para inflação, câmbio flutuante e superávits primários seguidos.
O tripé brasileiro funcionou até agora e mantém a economia brasiliera de pé e
mais forte diante da crise na Europa.
Portugal
Na última quinta-feira
(3), um dia depois de Georges Papandreou ter anunciado seu explosivo referendo
na Grécia, a notícia mais lida na edição digital do “Jornal de Negócios”, em
Portugal, foi: “É melhor para a Grécia sair? E depois, vamos nós?”. Os
portugueses se sentem como uma peça de dominó colocada atrás da Grécia e
assistem com uma mistura de estupefação e temor à crise política do país
helênico e a seus flertes com o abandono da Europa.
Talvez, por isso, é uma
obsessão em todo o país – que titubeou financeiramente este ano e em maio pediu
um socorro de 78 bilhões de euros – tentar separar-se o quanto antes e o máximo
possível do caos grego, a fim de que a Europa deixe de olhá-lo com suspeita. O
primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que anunciou há semanas, entre outras
medidas para conjurar o déficit, que os funcionários públicos e os aposentados
ficarão sem salários extras no próximo ano, foi claro ao comentar o desafio de
Papandreou à UE: “Espero que Portugal se aplique para demonstrar à UE e ao
mundo, inclusive agora com mais determinação, se possível, que não seguirá esse
exemplo. Não queremos ser confundidos com o que está ocorrendo na Grécia, e
isso depende totalmente de nós”.
Ninguém em Portugal, nem à
direita nem à esquerda, nem mesmo nas primeiras horas do anúncio de Papandreou,
se atreveu a insinuar a conveniência de um referendo parecido com o da Grécia.
O Partido Comunista português e o Bloco de Esquerda, contrários aos cortes e
aos ajustes, responderam que não constitui prioridade portuguesa uma consulta
popular nesse estilo. Preferem lembrar, como arma de luta, a greve geral
convocada pelos dois principais sindicatos para 24 de novembro, a fim de
protestar contra a política econômica do governo refletida no orçamento de
2012, que começará na próxima semana a ser discutido no Parlamento.
O Partido Socialista
português, a principal força de oposição do país, também não pede um referendo
parecido. Além disso, o secretário-geral do PS, José Antonio Seguro, defende
que seu partido se abstenha na hora de votar o citado orçamento. Apesar das
vozes em seu próprio partido que o impeliam a votar contra, Seguro prefere se
abster, segundo explicou, para reforçar a credibilidade do país. “Não farei a
Portugal aquilo que o líder da oposição grega faz na Grécia”, acrescenta o
líder socialista português.
Fontes: http://fimdostempos.net/portugal-teme-ter-um-final-similar-ao-da-grecia.html
http://g1.globo.com/platb/thaisheredia/2011/11/08/italia-a-proxima-vitima/
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