Teóricos da conspiração acusam a CIA de ajudar a difundir doenças pelo mundo

A CIA não mediu esforços em sua campanha implacável e, no final, bem sucedida para localizar e matar Osama bin Laden. Mas foi revelado que a inventividade irrefreada de seus agentes envolveu o recrutamento de um médico paquistanês para comandar um programa de vacinação comunitária em Abbottabad, como disfarce para tentar obter amostras biológicas das pessoas que viviam no complexo residencial de Bin Laden.

O esquema previa que o médico conseguisse entrar no complexo, a pretexto de uma campanha de vacinação contra a hepatite, aplicasse injeções nas pessoas que viviam com Bin Laden e, possivelmente, extraísse uma amostra biológica que pudesse confirmar a presença de Bin Laden a partir do DNA de seus filhos.

A artimanha empregada pela CIA para verificar a presença de Bin Laden no esconderijo em Abbottabad através de seu projeto “Agulha Troiana” desencadeou uma enxurrada de oposição por parte da comunidade de saúde pública. E com razão. Vincular uma agenda política e de inteligência a uma campanha médica representa uma violação da confiança entre médicos e pacientes –o entendimento de que o atendimento à saúde é fornecido com finalidades unicamente humanitárias.
Essa cadeia de confiança também se estende aos grandes programas de saúde pública, que dependem de líderes comunitários e nacionais para ganhar acesso a vilarejos remotos e para manter complexas redes de fornecimento de vacinas e remédios. A cooperação que possibilita o fluxo de ajuda humanitária entre os Estados Unidos e países atingidos pela pobreza e a doença foi construída após anos de negociações e graças a um histórico de colaborações bem sucedidas.
Agora a revelação das táticas empregadas pela CIA ameaça solapar um conjunto amplo de iniciativas globais de saúde americanas. Embora o esforço em Abbottabad não tenha envolvido americanos diretamente, a mão oculta da CIA deixa as atuais operações de saúde internacionais dos EUA vulneráveis a novo escrutínio e novas suspeitas, por mais infundadas e injustificadas possam ser. O ímpeto gerado pelas iniciativas de tratamento contra a Aids e a malária da administração Bush e a Iniciativa Global de Saúde do presidente Obama mobilizou bilhões de dólares e milhares de pessoas em dezenas de países em desenvolvimento. Recentemente o Departamento de Estado lançou uma campanha de diplomacia desenvolvimentista que promove a boa vontade americana por meio do “poder civil”. Agora, em vista da manipulação do programa de vacinação pela CIA, as motivações dos EUA para lançar a campanha podem suscitar ceticismo ou até mesmo ironia.
A confiança investida na assistência ao desenvolvimento prestada pelos EUA pode ser erodida, especialmente em regiões onde rivais geopolíticos dos EUA exercem pressão. É muito possível que as operações de saúde e os profissionais de saúde americanos que trabalham no exterior sejam sujeitos a vigilância de inteligência de outros países e enfrentam obstáculos e assédio politicamente motivados, potencialmente dificultando ou suspendendo o atendimento de saúde para milhões de pessoas necessitadas. 
Diplomatas encarregados de coordenar a ajuda dos EUA podem ser postos na defensiva. São especialmente vulneráveis ao escrutínio estrangeiro os programas de saúde patrocinados pelas forças armadas americanas, como as bases de pesquisas médicas da Marinha no Peru e no Egito e os programas de assistência médica do Departamento de Defesa na Etiópia e Tanzânia, onde equipes médicas americanas fornecem atendimento direto e assessoria em saúde pública.
No passado, teóricos da conspiração acusaram a CIA de ajudar a difundir doenças para promover suas próprias finalidades nefastas. Em 2000, por exemplo, o então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, acusou abertamente a CIA de fomentar a pandemia de HIV/Aids na região. Acusações desse tipo eram repudiadas facilmente por serem tão evidentemente absurdas. Mas, com a revelação da operação da agência no Paquistão, a CIA se torna vulnerável a novas críticas envolvendo a utilização errônea de programas legítimos.
Como a agência poderia agir para consertar os efeitos colaterais adversos provocados sobre a diplomacia de saúde americana? O próximo diretor da CIA, David Petraeus, deveria impor restrições e proibições claras às táticas de espionagem medicamente orientadas, de modo que a integridade e a finalidade humanitária da ajuda de saúde americana sejam reafirmadas e que as operações de assistência à saúde atuais e futuras não sejam utilizadas para finalidades outras. Comitês de fiscalização no Congresso deveriam investigar a operação no Paquistão e determinar se os líderes da CIA avaliaram as sensibilidades políticas mais amplas ou as implicações éticas de se usar uma tática de base médica para obter inteligência.
Por mais que fosse crucial atacar Bin Laden, o uso oculto de um programa de saúde legítimo ameaça fazer da ajuda à saúde e ao desenvolvimento prestada pelos EUA uma vítima não pretendida da luta contra o terrorismo. Com milhões de vidas sendo apoiadas pela ajuda dos EUA, é vital que a assistência médica aos necessitados continue sem interferência política e sem proporcionar argumentos para que sejam questionadas as motivações humanitárias dos Estados Unidos.
Jack C. Chow foi o embaixador dos EUA na campanha global HIV/Aids em 2001-03 e diretor geral assistente da Organização Mundial da Saúde para HIV/Aids, tuberculose e malária em 2003-05. Atualmente é professor da Faculdade Heinz de Política Pública da Universidade Carnegie Mellon.
Tradução de Clara Allain 
Publicado em: Folha Online

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