Opinião: Uma nova ordem mundial é possível (e necessária)

Os esforços do Brasil e da Turquia para encontrarem uma solução negociada do impasse em torno do programa nuclear do Irã, esforços esses que na semana passada renderam um acordo negociado com o Irã, precisam ser vistos dentro do contexto de um desafio crescente à ordem política internacional.
Desde o final da 2ª Guerra Mundial essa ordem política vem sendo dominada pelos Estados Unidos, com a Europa como parceira subordinada. A substituição do G7 (ou G8) pelo G20 é uma mudança importante, mas em grande medida simbólica. As alavancas do poder –como, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial– ainda são controladas mais ou menos como eram quando foram criadas em 1944: pelo Departamento do Tesouro dos EUA, com alguma participação de potências europeias. Do mesmo modo, os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que têm poder de veto sobre as decisões mais importantes das Nações Unidas, ainda são os aliados vitoriosos da 2ª Guerra Mundial, mais a China.
Mesmo a Organização Mundial do Comércio, formada em 1994-5 e que tem um processo consensual que não cede controle formal a Washington ou aos países ricos, já está desatualizada. Suas regras são tão fortemente enviesadas contra os países em desenvolvimento que, se sua ratificação ocorresse hoje, elas jamais seriam aprovadas pelos países membros.
Após um breve período de diálogo, a administração Obama reverteu à política externa da administração Bush com relação ao Irã –e já o fez com relação à América Latina. Trata-se de uma política de ameaças e sanções aumentadas contra o Irã, algo que intensifica em muito o risco de um confronto militar. Por exemplo, as sanções contra o Irã que Washington agora busca fazer aprovar pelo Conselho de Segurança autorizariam países a barrar e revistar navios iranianos se estes fossem suspeitos de estarem transportando materiais proibidos. Isso não apenas elevaria as tensões, como poderia levar a um confronto militar.
Contrastando com isso, Brasil e Turquia continuaram pelo caminho anterior e breve de diplomacia propugnado por Washington e fecharam um acordo que é semelhante ao que foi defendido/proposto pelos Estados Unidos em outubro do ano passado. Por esse acordo, o Irã enviaria 1.200 kg de urânio pouco enriquecido à Turquia. Após um ano, o Irã receberia 120 kg de urânio para seu reator de pesquisas médicas.
De acordo com a Federação de Cientistas Americanos, sediada nos EUA, as diferenças entre o acordo mediado por Brasil e Turquia e o acordo proposto em outubro são pequenas. Apesar disso, a administração Obama vem tratando o acordo com pouco caso e está seguindo adiante com seu plano de aumentar as sanções contra o Irã. Contrastando com isso, na sexta-feira o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse esperar que o acordo “possa abrir a porta para uma solução negociada”.
Brasil e Turquia já conquistaram uma vitória importante pelo fato de terem assumido a liderança nesta questão. Mostraram ao mundo que é possível obter avanços nesta questão por meio do diálogo e da negociação. Portanto, desaceleraram a marcha em direção ao confronto militar.
É claro que, como dizemos em Washington, nenhuma boa ação passa impune. A mídia ocidental, incluindo a maioria dos grandes veículos de mídia da América Latina, tende a fazer a cobertura das relações internacionais desde a perspectiva dos Estados Unidos. Como Washington vem satanizando o Irã, a mídia ocidental apresenta uma visão exagerada e unilateral do país, mostrando-o como ameaça ao mundo. E, dentro da maioria dos países –de modo quase monolítico na Europa, mas também em outros lugares, em graus diversos–, existe uma facção da elite que favorece a ordem hegemônica dos EUA contra a emergência de um mundo multipolar. A visão dela tende a dominar a mídia.
Aqueles que apoiam um mundo mais multipolar são acusados de serem “antiamericanos”. As elites pró-Washington jogam com os medos das pessoas de que tal mundo simplesmente criará outro império, possivelmente pior, ou que vá gerar instabilidade maior nas relações internacionais.
Mas a verdade é o oposto disso. Nos últimos dez anos a América Latina se tornou imensamente mais independente dos Estados Unidos do que jamais foi –e sua população, especialmente os pobres e a maioria, claramente se beneficiou disso. E, como mostra a diplomacia Brasil/Turquia, um mundo multipolar ajudará a reduzir o risco de guerras.
É como passar de uma ditadura para uma democracia. Do mesmo modo como a democracia representativa, conforme existe hoje, não garante voz igual a todos os cidadãos, tampouco um mundo multipolar o fará. Mesmo assim, a democracia é muito preferível à ditadura. E, na arena internacional, ela está abrindo a porta a um papel maior do estado de direito, da diplomacia –em lugar das ameaças e violência que violam a Carta da ONU– e a um progresso social e econômico maior.
“Mark Weisbrot é co-diretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, D.C. (www.cepr.net) e também presidente da Just Foreign Policy ( www.justforeignpolicy.org)” 
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